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Claquete! Ação!
Cena 1: O cinema independente

Por Giulianna Mazzali, Maria Vitória Bertotti e Talita Cardoso

A história, o contexto, a luta, a importância, os festivais, o incentivo, a representatividade. A sétima arte e as histórias que as telonas de Hollywood não exibem

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A história antes das histórias

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Esboço da câmara escura feita por Leonardo da Vinci (Reprodução: Biblioteca Ambrosiana, Itália)

Todos já ouviram falar sobre os irmãos Lumière, não é? Mas calma que, antes deles, tem muita história para contar por trás do surgimento do cinema… Nossa linha do tempo começa na milenar China, por volta de 5 mil anos a.C., onde o teatro de sombras já retratava a técnica de usar a luz para projetar imagens ao público. Avançando nos séculos, encontramos Leonardo da Vinci que, ainda no século XV, revolucionou a tecnologia da época com sua invenção da câmara escura - utilizada posteriormente como base para a criação da fotografia.

 

Muitos outros equipamentos foram surgindo com o passar do tempo e o aperfeiçoamento do uso da luz para produzir imagens. Nossa última parada é em 1890, quando o engenheiro escocês William Kennedy Laurie Dickson, assistente do cientista e inventor estadunidense Thomas Edison, inventou o cinetoscópio, um aparelho em que se podia observar através de um orifício imagens projetadas em uma câmara escura, que criavam cenas curtas – porém, só podiam ser vistas individualmente, já que a máquina não permitia projeções em telões. 

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Finalmente, apenas em 1895, os irmãos Lumière entram em cena. Auguste e Louis Lumière patentearam uma versão do cinetoscópio desenvolvida pelo francês Léon Bouly em 1892 que era capaz de gravar e projetar a luz das imagens-movimento em tela, isto é, o novo equipamento, chamado de cinematógrafo, conseguia fazer projeções em maior escala para um público.

 

Foi com essa invenção que, em 22 de março de 1895, no Grand Café Paris, os irmãos realizaram a primeira exibição de filme da história do cinema: “La Sortie de L'usine Lumière à Lyon” (A saída da Fábrica Lumière em Lyon) retratava a saída de funcionários do interior da empresa Lumière, na cidade de Lyon, na França.

 

A partir desse dia, os Lumière passaram a criar diversas produções cinematográficas de pequena capacidade e exibi-las. A evolução do cinematográfico também permitiu que fosse possível criar verdadeiros produtos audiovisuais, com cenas dramáticas roteirizadas, elaboradas e idealizadas com certo nível de teatralidade – não apenas registrar cenas do cotidiano das pessoas e reproduzi-las sem alterações.

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Irmãos Lumière e cinematógrafo patenteado por eles

O cinema independente no mundo

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3. Georges Méliès, à esquerda, e D.W. Griffith, à direita.jpg

Depois da popularização do cinematógrafo, o cinema ganhou novas dimensões. Ao longo da história, nomes como o de Georges Méliès – que por meio da técnica do stop motion dirigiu, em 1902, o curta “Viagem à Lua” – e o de D. W. Griffith – que trouxe diversas inovações às técnicas do audiovisual, como no filme “O nascimento de uma nação”, de 1915 – foram um marco, sendo lembrados até os dias atuais pelo caráter revolucionário de suas criações. 

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Os anos foram passando, o cinema passou a ser nomeado como “sétima arte” e a indústria cinematográfica se transformou em um império de produções cada vez mais caras, elaboradas e, infelizmente, genéricas. Sob o conceito de entretenimento de massa, alimentado pela indústria cultural, o cinema tradicional ocupou as telonas e passou a ditar as tendências de gêneros e temáticas do momento, tendo como um dos seus principais influenciadores o cinema estadunidense hollywoodiano.

 

Porém, é nesse contexto que os mercados independentes emergem, atuando como um movimento de contraposição ao mercado dominante, caracterizado pela liberdade criativa e a experimentação autoral. Países como Itália, França e os próprios Estados Unidos exerceram um papel muito expressivo na história alternativa do cinema, bem como o Brasil, que também não ficou de fora da cena underground e mostrou a relevância de retratar temáticas até então excluídas do mundo audiovisual.

Georges Méliès e D.W. Griffith

Dito isso, vamos começar nosso tour pela história do cinema independente no queridinho das telonas: os Estados Unidos. Curiosamente, uma das teorias do surgimento do cinema independente estadunidense é que seu berço está em Hollywood. Isso mesmo, a grande indústria Hollywood! Em 1908, um acordo entre as grandes companhias da época criou restrições de comércio para empresas e estúdios menores que não estavam nas negociações, por isso, eles deixaram Nova Iorque, que era considerada o polo cinematográfico do momento, e se mudaram para a ensolarada Los Angeles. Os pequenos estúdios independentes, antes totalmente sem recursos, cresceram com o tempo e se transformaram na grande potência que compõe a atual Hollywood – dentre eles, Fox, Paramount e Warner Bros.

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Contudo, no início do século, a maioria das produções dispunha de baixo orçamento e as diferenças entre a mídia predominante e o cenário alternativo eram mínimas. De acordo com a Woo! Magazine, especializada em publicações do gênero cultural, a new wave estadunidense do cinema independente tem início próximo ao fim da Segunda Guerra Mundial. “Com tecnologias mais baratas e acessíveis, de caráter experimental, o filme Meshes of an Afternoon (1943), rompe com conceitos clássicos de montagem, ritmo e som, elevando o espectador a um efeito de transe que possibilitava que o cinema fosse uma experiência sensorial.”, afirma Letícia Vilela à publicação. 

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As produções a partir desse momento passam a ser fragmentadas em duas correntes: Filmes B ou filmes de exploração e Filmes Cult. Os filmes de exploração se dividem em duas fases, cuja fase inicial, pertencente ao período do final dos anos 1950 e toda a década de 1960, caracterizava-se por retratar temáticas consideradas tabus para a época, com exibições autônomas. Já a segunda fase, que teve início a partir dos anos 1960, se destacou por subverter as normas padrões que imperavam as práticas das produções antecedentes. Sem as imposições estéticas ou o controle de censura, filmes audaciosos e impactantes se proliferam, como é o caso das obras dos cineastas Edward Wood e George Romero.

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Em contrapartida, os filmes reconhecidos como Cults possuíam um caráter mais introspectivo e intelectual, uma forma mais crítica e reflexiva de apresentar as temáticas abordadas. Nesse contexto, destacam-se diretores como John Cassavetes, com filmes de baixíssimo orçamento como Shadows, e Martin Scorsese.

Letícia ainda comenta sobre a importância da criação do Sundance Festival para assegurar a presença dos filmes independentes no cenário comercial, mas também para retomar a antiga discussão do que é, por conceito, independente: “Com a criação do Sundance Festival para dar visibilidade a filmes independentes, idealizado por Robert Redford, esse cinema cresceu cada vez mais. Isso passa a gerar discussões em torno do assunto de categorização do que seria uma produção independente, uma vez que a linha entre esses filmes e os hollywoodianos torna-se cada vez mais tênue, já que essas produções, voltadas para nichos específicos de espectadores, contudo, tem grande potencial lucrativo. Isso faz com que a característica que permanece até os dias atuais desse cinema independente, unicamente, é a liberdade criativa dos autores para com suas obras”.

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Cenas do filme Shadows, de John Cassavetes

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La Chimera (2023)

"La Chimera" é um filme de drama romântico escrito e dirigido pela italiana Alice Rohrwacher. A história é centrada em um jovem arqueólogo britânico que se envolve em uma rede internacional de artefatos etruscos roubados durante a década de 1980. O longa concorreu no 76º Festival de Cinema de Cannes, no qual estreou em 26 de maio de 2023, e ganhou o Prêmio AFCAE de Cinema Casa de Arte e o Palme Dog - Momento Vira-Lata.
Image by Felix Mooneeram

O Oscar já saturou, né?

O Oscar já deu uma saturada, não? Todas as categorias da grande cerimônia costumam premiar apenas homens - em sua maioria - e pessoas brancas, mas têm presenciado uma sutil mudança dos últimos anos para cá ao entregar a estatueta para atores e atrizes negras, diretores e o título de melhor produção para nomes do leste asiático. 

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Esse fenômeno ainda é raro na Academia, que adota critérios tradicionais ao indicar e premiar as obras cinematográficas; exemplo disso é a clara exclusão do gênero terror que é excluído dos nomeados em quase todos os anos.

 

m breve histórico do desprezo que os filmes de horror recebem inclui desde a não nomeação de Mia Goth (atriz) pela sua atuação impecável e premiada em Pearl e X- A Marca da Morte, passando pelo clássico O Iluminado e o desdém que recebeu ao não ser indicado para nenhuma categoria sequer e indo até os primórdios dessa richa quando o filme Frankenstein (1931)  também não recebeu indicação para concorrer ao Oscar. 

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Uma das hipóteses para isso acontecer é que, como os membros da Academia fazem parte do universo das >Artes Dramáticas<; elas prezam um tanto pelo que é mais tradicional e, enfim, esbarram na questão do terror fazer parte de um gênero popular que atinge as massas, tal qual blockbusters de super-heróis e fantasia.

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Retornando aos festivais que oferecem ou já ofereceram oportunidades para todas as pessoas e gêneros de filmes, um dos primeiros que surgiram na história foi o Festival de Cinema de Veneza. No ano de 1932, ele inaugurou a que seria a primeira das premiações para filmes conhecida mundialmente.

 

Apesar de hoje em dia contar com exibição e indicação - em sua maioria - de filmes mais conhecidos e de produtoras maiores, ele já foi palco das obras desconhecidas pelo mainstream da época (que seriam os filmes bombados entre o público mesmo sem o advento da internet); Frank Capra era um dos nomes participantes das primeiras edições.

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Outro nome muito conhecido do mundo dos festivais de cinema alternativo no exterior é o Festival Sundance de Cinema, que teve seu início em 1978 no estado de Utah, lá nos Estados Unidos, e continua até hoje mantendo suas raízes na independência das obras cinematográficas. O Sundance começou com a intenção de fugir dos parâmetros das produções de Hollywood e dar espaço e visibilidade aos novos talentos americanos.

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A necessidade de dar reconhecimento não só aos grandes sucessos dos cinemas mundiais mas também às pequenas produtoras e artistas independentes fez com que esses festivais surgissem lá atrás. Hoje, a repercussão do cinema é bem diferente de como era no início, mas em cada festival, seja ele voltado ou não para o cinema independente, carrega um pouco da história das premiações já citadas por aqui - e ainda revoluciona com as que virão a seguir. 

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Num contexto nacional, esses festivais surgiram na tentativa de acompanhar a expansão da indústria cinematográfica e premiações que estavam rolando pelo mundo afora, com destaque para a Europa. Por aqui, alguns dos nomes mais conhecidos que dão reconhecimento ao alternativo são o Festival de Gramado e o Festival do Rio.

Festivais de Cinema

ao redor do mundo

Luz, câmera, ação… Tudo isso vindo, na maioria das vezes, da voz de um homem branco, cis e hetéro.

Para conhecer o New Queer Cinema:

Esse estereótipo do cineasta padrão não surgiu do nada. Se rodarmos a lista de vencedores de melhor direção do Oscar, apenas sete mulheres foram indicadas e, dentre elas, apenas três levaram a estatueta para casa. 

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Até mesmo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela organização da maior premiação do cinema mundial, percebeu a falha no mainstream e anunciou, em 2020, que a partir da premiação de 2025 apenas filmes que atingirem alguns critérios de representatividade poderão receber o prêmio de melhor filme.

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A decisão surgiu de um histórico de pressão social, quando, em 2016, a hashtag #Oscarssowhite (Oscars Brancos Demais) virou trend no Twitter, denunciando que, dentre os artistas indicados para a categoria de melhor ator ou atriz, 20 eram brancos.

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Assim, a Academia resolveu fazer uma repaginação para se tornar mais inclusiva e, entre os anos de 2015 e 2020, aumentou seu eleitorado de mulheres em 8%. Além disso, de lá pra cá, mais 819 membros de mais de 65 países compuseram a banca, com objetivo de quebrar o paradigma da premiação ser centrada no mercado norte-americano.

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Uma produção mainstream é o reflexo da sociedade. Uma maioria esmagadora de pessoas privilegiadas e, apesar de pautas sociais aos poucos começarem a ser abordadas nas telonas dos blockbusters e as mãos de pessoas LGBTQIA+, mulheres e negros estarem mais presentes no processo de produção desde o roteiro até a direção, a representatividade do cinema hegemônico continua minúscula se compararmos com a do cinema independente, desde sempre muito focada em abordar temáticas pouco exploradas.

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A Academia do Oscar precisou de décadas e muita pressão social para perceber algo de errado. Demoraram quase cem anos para perceber uma opressão que o cinema alternativo já denunciava no início dos anos 90 através do New Queer Cinema.

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O movimento, que em português pode ser chamado de Novo Cinema Queer, surgiu com a proposta de produzir filmes com temáticas LGBTQIA +, longe da heteronormatividade da indústria. Obras com ativismo, sensualidade e reflexões predominavam no movimento.

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No contexto brasileiro, a primeira obra a representar a homossexualidade foi Jenipapo (1995), dirigido por Monique Gardenberg, retratando a história de um repórter e um padre em um contexto de luta pela reforma agrária no nordeste do país, onde acabam se apaixonando.

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Mas não há dúvidas de que não só no cinema estadunidense que a falta de pluralidade e representatividade é um problema. Em uma pesquisa levantada pela GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa), entre 1995 e 2018, mais da metade dos diretores dos filmes brasileiros de grande público eram homens brancos. No roteiro, o padrão se repete.

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“Eu sentia necessidade de encontrar qualquer filme ou novela, que fosse voltada para o público LGBT”. Comenta Rodrigo, formado em Rádio, Televisão e Internet na Unesp de Bauru e diretor do curta LGBTQIA+ “Eu Estou Aqui”, que já foi assistido por mais de 100mil pessoas. “Na maioria das vezes que eu via personagens homossexuais sendo representados na tela, eles eram sempre parecidos. Ou tinham histórias trágicas, problemas com familiares, problemas de aceitação ou eram personagens caricatos."

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A produção de seu curta, segundo ele, veio da necessidade de contar uma história que trouxesse um romance como qualquer outro. Entre dois homens, mas que não fosse focado nas problemáticas que ser homossexual na sociedade brasileira pudesse trazer.

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O cinema independente consegue quebrar esses paradigmas, trazendo diversidade de vozes silenciadas pelo mainstream. A representatividade dos produtores alternativos vai além do que está na frente das câmeras, se estendendo a todo o processo de produção. O diretor também acredita que uma das maiores magias do cinema independente é poder contar suas histórias sem amarras, com a visão singular do mundo do diretor.

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#1: 2 Garotas In Love (1995)

Sinopse: Uma jovem rebelde se apaixona pela garota rica de seu colégio.

Direção: Maria Maggenti

País: Estados Unidos

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#2: Primeiro Verão (2000)

Sinopse: Dois adolescentes que se apaixonam nas férias e o que sobrou do relacionamento após 18 meses.

Direção: Kit Hung

País: França; Bélgica

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#3: Young Soul Rebels (1991)

Sinopse: Dois amigos administram uma rádio pirata. Quando um crime acontece, eles se tornam os principais suspeitos.

Direção: Isaac Julien

País: Reino Unido

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#4: Mal dos Trópicos (2004)

Sinopse: Uma história mítica entre um soldado e um garoto do campo baseado no folclore tailandês.

Direção: Apichatpong Weerasethakul

País: Tailândia

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#4: All Over Me (1997)

Sinopse: Uma adolescente se apaixona pela melhor amiga, que está saindo com um cara, até um assassinato mudar tudo.

Direção: Alex Sichel

País: Estados Unidos

“Uma das maiores forças do cinema independente é a de contar histórias que dificilmente seriam representadas por empresas que atingem um grande público, mas que ao mesmo tempo podem furar a bolha. Além de dar voz para diversos artistas e diferentes realidades… Poder contar histórias inspiradoras que podem fazer a diferença na vida das pessoas”

 

- Rodrigo Pereira, diretor do curta Eu Estou Aqui

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